
Capítulo 1 · 1987
O menino de Teófilo Otoni
Thiago nasceu em 19 de março de 1987, em Teófilo Otoni, no interior de Minas Gerais, numa família de valores cristãos. A infância foi de mudança: Araçuaí, Novo Cruzeiro, Barbacena.
Começou a trabalhar ainda pequeno, para ajudar em casa. Depois vieram muitos anos em farmácias e em hospital. O dia era do trabalho. A noite era da faculdade e do cursinho.
Foi nessa rotina que ele decidiu fazer a prova da Polícia Militar. Prestou em três estados e passou nos três: Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo.
Passou em três. Escolheu o Espírito Santo.
Deixou a faculdade de Sistemas para Internet e foi. Ainda não sabia, mas estava indo ao encontro da Reny.

Capítulo 2 · Reniely
A menina de Leopoldina
Reniely é a Reny. Passou a vida inteira em Leopoldina, uma cidade pequena de Minas Gerais, ao lado do pai, da mãe e da irmã. Era tão caseira que nunca tinha dormido fora, nem na casa de uma tia.
Aos 17 anos, passou no primeiro concurso, na prefeitura da cidade, e ficou seis anos. Depois virou agente penitenciária. Ser policial nem era o sonho dela: a vontade nasceu ali.
Quando a Polícia Civil do Espírito Santo chamou, ela fez o que mais temia. Em 2011, saiu de casa.
“Agora sou eu e eu.”
Reny
Chorou no tchau da mãe. Sentia falta até do suco de laranja que o pai fazia. Não dirigia, andava de ônibus e tinha medo de andar sozinha na rua, mesmo sendo policial.
No começo, teve um princípio de depressão, buscou ajuda e quase largou tudo para voltar. Não voltou. De 2011 a 2016, viveu sozinha em Guarapari.
Virou advogada, encontrou na polícia a profissão que ama e passou a sonhar em ser delegada. Mesmo cansada, às nove da noite sentava para estudar.
A Reny diz que Deus a levou por caminhos que pareciam ruins para entregar algo melhor. Ela só não imaginava como esse algo melhor ia chegar.
Capítulo 3 · 2016
A ocorrência incompleta
Em 2015, depois do curso de formação em Alegre e dos estágios no sul do estado, o Thiago foi trabalhar em Guarapari. Eram dois mineiros na mesma cidade, sem saber um do outro.
Num plantão de 2016, ele chegou à delegacia para entregar uma ocorrência. Ela garante que ele veio todo perfumado, porque já sabia que os plantões batiam. Ele não assume.
O respeito dele chamou a atenção dela. Mesmo assim, ela olhou o papel e devolveu, em bom mineirês:
“Vai completar esses trem, tá errado.”
Ele jura até hoje que não faltava nada. Ela garante que faltava, e que ele saiu todo bravo para consertar.
Dias depois, o WhatsApp dele apitou com uma mensagem de um número desconhecido. Era só um pontinho.
Um pontinho. Foi assim que a Reny puxou conversa.
Ela tinha visto que o telefone dele ainda era de Minas, e veio com um papo de que conhecia aquele DDD.

A partir dali, ele dava um jeito de aparecer nos plantões dela. Um dia, saiu do serviço, pegou a motinha e ficou na porta da delegacia mandando mensagem. A internet dela não funcionava, e ela só viu tudo depois.
Quando enfim saíram, ele avisou que não queria nada sério. Ela disse que tudo bem e parou de atender. No quarto dia, ele apareceu quase com aliança na mão.
Depois vieram as goteiras. Ele dizia que a casa onde morava estava cheia delas e que precisava de abrigo. Ela não acreditou muito, mas acolheu. Em poucos meses, moravam juntos no apartamento dela. Ele jura que as goteiras eram verdade.
Depois de cinco anos sozinha, ela não estava mais.
Capítulo 4 · 2018
A foto que deu nome a tudo
Em 2018 nasceu o Théo. Na licença-maternidade, a Reny abriu uma página chamada casinha da rê, com dicas de arrumação e receitas de limpeza. Era isso: uma mãe, um bebê pequeno e dicas para a casa.
Até que apareceu na página uma foto do ensaio de gestante. Ela com a blusa da Polícia Civil. Ele com a farda da PM.
Os seguidores quiseram conhecer aqueles dois. E a página mudou de nome.
casinha da rêcasal policial
Nenhuma agência inventou esse nome. Ele nasceu nas ruas e nas redes, de gente que olhou para aquela foto e quis saber mais.
Capítulo 5 · A rotina
O lado que ninguém mostrava
Eles passaram a postar o dia inteiro, do despertador até a hora de dormir. E com bom humor, porque era esse o ponto:
“Compartilhamos nossa vida nas redes sociais de uma forma bem humorada, em busca de compartilhar um lado diferente do que normalmente pensam quando falamos de policiais.”
Quando tinha operação ou serviço, sumiam por um tempo. E os seguidores cobravam, igual mãe quando a gente demora a responder.
Aí as mensagens começaram a mudar. Muita gente achava que ser policial era um sonho impossível, e dizia que ver aquela rotina dava força para continuar. Motivar essas pessoas virou o principal objetivo dos dois.
Capítulo 6 · 2023
O dia de tirar a farda
Enquanto o Casal Policial crescia nas redes, a vida do Thiago dentro da polícia ficava mais pesada. A ideia dele sempre foi humanizar a farda, mas ele conta que passou a sofrer perseguição por causa dos vídeos.
Vieram as escalas de noite, com um filho pequeno em casa, e, em março de 2023, uma suspensão de dez dias.
“Vale a pena ficar no local onde estou triste trabalhando?”
Thiago, 2023
Essa foi a pergunta que ele levou para a família. A resposta foi sair. Mas ele conta que passou quase um ano pedindo, sem autorização.
Para tirar a farda, ele teve que entrar na Justiça.
Conseguiu com um mandado de segurança, em setembro de 2023, a cerca de dois meses de completar nove anos de polícia. Saiu de cabeça erguida e sem nada certo, com a Reny ao lado e a fé de que Deus estava preparando algo melhor para a família.
Capítulo 7 · 2024
Da farda para a Câmara
Guarapari era a cidade que o Thiago tinha escolhido para trabalhar quando chegou ao Espírito Santo. Em 2024, um ano depois de sair da PM, ele se candidatou a vereador ali.
Foi eleito com 823 votos, o 16º entre os 17 vereadores da cidade. Chegou como novato, por uma porta bem estreita.
Na Câmara, passou a fiscalizar obras e serviços públicos e a cobrar a manutenção de praças, quadras, academias populares e postos de guarda-vidas. E continuou fazendo o que já sabia: mostrar tudo nas redes.

Capítulo 8 · 2026
Os 823 votos viraram 40.068
Dois anos depois daquela primeira eleição, o Thiago disputou uma vaga de deputado estadual. A resposta veio em 4 de outubro de 2026: 40.068 votos, o sexto mais votado do Espírito Santo.
Teve voto nas 78 cidades do estado. A que mais votou nele foi Guarapari, com 11.889 votos, a mesma cidade em que ele conheceu a Reny.
Um dia ele escolheu o Espírito Santo. Em 2026, o Espírito Santo escolheu ele.
O menino que trabalhava para ajudar em casa toma posse na Assembleia Legislativa em 1º de fevereiro de 2027.

Capítulo 9 · Hoje
A casa ficou cheia
Tudo começou numa página sobre arrumar a casa. Hoje essa casa tem quatro pessoas: a Reny, o Thiago, o Théo e o Davi.
O Davi veio pouco antes da campanha. Enquanto a Reny esperava o segundo filho, o Thiago começava a campanha, e a família crescia junto com a história.
A primeira foto de gestante deu nome ao Casal Policial. Na segunda, foi o Théo quem segurou a roupinha com o nome do irmão.
A fé sempre esteve ali, desde a família em que o Thiago cresceu.
Seja forte e corajoso.
Josué 1:9
Capítulo 10 · Você
Guardiões
É assim que eles chamam quem acompanha essa história. Guardião é quem protege, zela e cuida.
Você chegou ao fim desta página, não ao fim da história. Ela continua todo dia, e tem um pedaço dela que é seu.
Um cordão de três dobras não se rompe com facilidade.
Eclesiastes 4:12
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